Comuna Teatro da Pesquisa

 

“DO DESASSOSSEGO”

Do desassossego

de Bernardo Soares / Fernando Pessoa
Adaptação de Carlos Paulo
Versão Cénica e Encenação de João Mota

Em colaboração com a
Casa Fernando Pessoa

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos o males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca. não sentimos os nossos - vis porque são nossos e vis porque são vis.

O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares de arte, ou antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas, amor, sono e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por Ter gozado dela.

O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.

Por arte entende-se tudo o que nos delicia sem que seja nosso - o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.

Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.

Não me indigno, porque a indignação é para os fortes; não me resigno, porque a resignação é para os nobres; não me calo, porque sou artista, entretenho-me a tecer musicais as minhas queixas e a arranjar meus sonhos conforme me parece melhor a minha ideia de os achar belos.

Só lamento o não ser criança, para que pudesse crer nos meus sonhos...

Bernardo Soares/Fernando Pessoa
“O Livro do Desassossego”

Ficha Técnica:

Autor: Bernardo Soares/Fernando Pessoa
Adaptação: Carlos Paulo
Versão Cénica e encenação: João Mota
Elenco: Carlos Paulo e Hugo Franco
Figurante: Mário Correia
Música Original: Hugo Franco
Desenho de Luz: João Mota
Assistência de encenação: Miguel Sermão
Figurinos: Carlos Paulo
Equipa Técnica: Nuno Samora, Renato Godinho e Mário Correia
Assistência Geral: Alexandre Lopes, Cremilde Paulo, Madalena Rocha e Leonor Gama
Gabinete de Produção: Rosário Silva e Carlos Bernardo
Assistente de Produção: Cecília Sousa

De Quarta a Sábado às 21h30m / Domingos às 17h
Em cena de 30 de Abril a 12 de Junho